sábado, 17 de outubro de 2009

A cama de Procrusto

Muitas vezes, como tradutora, sou obrigada a fazer a minha tradução caber no mesmo layout e espaço que o designer projetou específicamente para a língua original. No caso de português para inglês, a tradução em si é geralmente menor, mas às vezes tem que ser maior, quando precisa de notas do tradutor. Nestes casos, sou obrigada a "esticar" ou cortar a tradução para caber num espaço que muitas vezes nem foi pensado para receber textos em outras línguas. Quando se trata de traduções para o espanhol, que é quase sempre maior do que o português, os cortes são ainda maiores e podem até deixar o texto troncado. Esta situação sempre me lembra a lenda da cama de Procrusto:

Procrusto

Friedrich Dürrenmatt

leia no original alemao

Na localidade de Coridalos viviam muitos gigantes e homens crescidos normais. Disso decorria que os homens maiores, os gigantes, subjugavam os homens menores. Como Coridalos ficava na região da Ática, soprou até lá um hálito de razão vindo de Atenas, inspirando o gigante Polípemo, que era particularmente grande, a pensar. Durante várias semanas ele andou pensativo pela paisagem, refletindo sobre a desigualdade dos homens. Depois ele se nomeou Procrusto, o esticador, e construiu duas camas, uma para os gigantes e outra para os não-gigantes. Na cama para os não-gigantes ele colocava os gigantes e lhe cortava as pernas, de modo que eles coubessem na cama dos não-gigantes. Os não-gigantes, ele colocava na cama dos gigantes e os esticava, até que estes se adequassem à cama.

Palas Atena, de cujo hálito soprou o ar da razão até Coridalos, sentiu-se responsável e dirigiu-se a Procrusto. Ela lhe perguntou o que fazia.

"Estou agindo de acordo com a tua razão, deusa", respondeu o gigante, "cujo hálito colocou em movimento o meu pensar. Eu comecei a refletir sobre a desigualdade dos homens. Ela é injusta. Eu me dei conta pouco a pouco de que a justiça exige que todos os homens sejam iguais. Isto é razoável. Há em Coridalos gigantes e não-gigantes. sendo que os primeiros subjugam os segundos. Os homens são aqui desiguais de dois modos: em seu ser e em seu fazer. Isto não é razoável. Ora, se eu tornasse apenas os gigantes em não-gigantes, cortando-lhes as pernas, eu teria produzido com isso, todavia, uma nova injustiça: não-gigantes aleijados e não-gigantes, sendo que nesse caso estes últimos submeteriam os gigantes que se tornaram aleijados. Também irrazoável. Mas se eu agisse contra os não-gigantes, se eu os esticasse ao tamanho dos gigantes aleijados, eu teria produzido uma nova injustiça: tal como os gigantes aleijados, eles estão tão entregues aos gigantes quanto os não-gigantes. Outra vez irrazoável. Assim sendo,a meu ver, so há uma possibilidade de estabelecer a igualdade de todos os homens: os gigantes têm o direito de ser não-gigantes, e os não-gigantes de ser gigantes. Eu estou agindo de acordo com isso. Eu corto as pernas dos gigantes, eles se tornam tão pequenos quanto os não-gigantes. Quanto aos não-gigantes, eu os estico até ficarem do tamanho dos gigantes. Tal operação torna ambos iguais, pois através dela ambos se tornam aleijados. E se eles morrem em conseqüência da operação, eles também são iguais entre si, pois a morte torna todos iguais. isto não é razoável?"

Balançando a cabeça negativamente, Palas Atena retornou a Atenas. A argumentação de Procrusto a fez perder as palavras. Foi a primeira vez que ela, como deusa, ouviu um discurso ideológico, e ela não encontrou nenhuma réplica. Procrusto, em virtude do silêncio da deusa, convenceu-se da correção de suas deduções, e voltou a torturar. Àqueles que torturava, ele sempre esclarecia que o fazia em nome da justiça: ora, um gigante tem o direito de ser um não-gigante e vice-versa. A localidade de Coridalos tornou-se um inferno, repleta dos gritos dos martirizados, que podiam ser ouvidos em toda a Grécia. Os deuses, embaraçados, tapavam os ouvidos com as mãos. Eles também não encontravam nenhuma réplica à argumentação de Procrusto. As pragas, em especial, eram horríveis de se ouvir. Por isso, eles desligavam o som dos televisores - como deuses eles estavam tecnicamente bem à frente dos homens - para não mais ouvir as preces e os pedidos de socorro, bem como a gritaria e as maldições de Coridalos, razão pela qual eles nada mais ouviam do resto da terra. Todavia, isso fez com que els não mais interviessem na história.

E assim, então, gigantes e não-gigantes amaldiçoavam Procrusto, enquanto ele os torturava, e os aleijados gigantes e não-gigantes o amaldiçoavam também. Saíam maldições até mesmo do túmulo daqueles que não haviam passado pelo procedimento bárbaro. Mas visto que Procrusto não compreendia porque ele estava sendo amaldiçoado - pois ele se sentia um benfeitor e era em geral um gigante muito sensível -, ele imaginou que o problema estava em seu método, adquirindo especialmente para as suas camas bons colchões. Desse modo, enquanto os coridalianos gritavam incessantemente e amaldiçoavam, ele tentava acalmar os torturados de um outro modo, já que eles não haviam sido iluminados pela razão divina como ele. Ele dizia para as suas vítimas que era heróico sofrer cada um em sua cama específica, fabricada de árvores que cresciam em todo o país - uma razão não menos irracional, porém, agora uma razão patriótica para as suas torturas.

E realmente, desta vez alguns gigantes e não-gigantes se colocavam como voluntários aqui. No geral, as maldições foram diminuindo com o tempo. Por encontrarem motivos para a ação de Procrusto, eles também encontravam consolo para tanto sofrimento. Houve até gigantes aleijados e não-gigantes aleijados que se convenceram de que haviam sido torturados para um futuro melhor. Por causa disso, pelo menos a chegada de Procrusto não era mais amaldiçoada, pois, com o tempo, as gigantes, através de uma adaptação evolucionária, passaram a dar à luz aleijados não-gigantes e as não-gigantes, a aleijados gigantes, de modo que Procrusto, no geral, não precisou mais torturar. Outros contentavam-se em morrer desse modo, desde que assim, esperavam eles, no futuro não houvesse mais nenhuma tortura.

Em virtude das razões apresentadas, os torturados eram levados a suportar a tortura, mesmo sendo ela irracional. Só alguns poucos gigantese não-gigantes torturados insistiam depois que a cama de tortura e a tortura fossem inutilizadas. Isso era o que Procrusto mais odiava. Ele ainda se revoltava com o fato de as pessoas não entenderem que ele não torturava por prazer, mas sim por um necessidade histórica. Tendo em vista que, a fim de não mais ouvir as queixas e gritarias, ele sempre imaginava motivos para torturar, ele acrecditava que, com o tempo, a história só podia ter um sentido se ela progredia, e se tal progresso consistisse em que ela é sempre mais justa, e ela só é mais justa se, a partir da desigualdade dos homens, ela se desenvolve em direção à igualdade deles.

Enquanto isso, o jovem Teseu caminhou de Tróia para Atenas, para lá se tornar rei, como filho de Egeu. Visto que ele concebia a política desde um ponto de vista prático novo, ele também veio a Coridalos. Lá ele ouviu e se admirou da Ideologia de Procrusto.

"Tu precisas admitir que eu estou agindo de maneira razoável", disse Procursto, orgulhoso, "a própria Palas Atenas não sabia me replicar".

"Tu ages tão irrazoavelmente quanto Pitiocampto, o podador de abetos, quando ele corta o andarilho em dois, e os inserta nos troncos de dois abetos tortos e então os deixa crescer", respondeu Teseu. "A única diferença entre Pitiocampto e tu consiste em que ele não imaginou que devesse cortar em nome da justiça dos homens. Ele o fazia pelo puro prazer da crueldade".

"Pitiocampto é meu filho", disse Procrusto, pensativamente.

"Eu o matei", respondeu Teseu, tranquilamente.

"Agiste corretamente", disse Procrusto, depois de longo pensar, "embora Pitiocampto fosse meu filho. Não é permitido matar pelo puro prazer da crueldade".

Assim, enquanto Procrusto queria cumprimentar Teseu agradecido, este jogou o gigante com tal força na pequena cama que a terra estremeceu.

"Seu louco", ele disse, e abateu Procrusto, que lhe encarava com os grande olhos, admirado. "Você foi retirado do hálito da razão muito cedo. As pessoas não são iguais, mesmo se não houvesse gigantes e não-gigantes, mas só gigantes, ou só não-gigantes. E porque as pessoas não são iguais, algumas maiores, outras menores, cada gigante tem o direito de ser um gigante, e cada não-gigante de ser um não-gigante. Ambos são iguais apenas perante a lei. Se tu tivesses introduzido esta lei, terias evitado que os gigantes dominassem os não-gigantes, ou, o que poderia bem ser o caso, que fossem os gigantes prejudicados pelos não-gigantes. Com isso, você teria poupado seus conterrâneos dessa tortura absurda".

E, assim, Teseu primeiramente cortou as pernas de Procrusto e, porque este já era especialmente um gigante grande, cortou-lhe também a cabeça, que ainda murumurava ao ser decepada:

"Eu só estava sendo justo". E então a cabeça ainda disse, enquanto ainda estava em cima do pescoço, antes que os grandes olhos se fechassem: "Eu jamais fizera mal algum aos homens".

Depois disso, Teseu caminhou de volta a Atenas para junto de seu pai Egeu. Infelizmente, Teseu era não apenas um herói; ele era também esquecido. Ele se esquecera, quando estava com Procrusto, que não matara apenas o seu filho Pitiocampto, mas sim também engravidara a sua neta, Periguna. Ele simplesmente se esqueceu de tudo. Seu lenço estava cheio de nós, era inútil. Ao regressar de Creta, ele esqueceu Ariadne na ilha de Naxo, que lhe salvara do labirinto, e assim esqueceu de levantar a vela branca, de modo que o seu pai atirou-se ao mar, porque ele pensou que Teseu fora morto pelo Minotauro no labirinto. Por causa disso, Teseu tornou-se rei. Infelizmente, ele também esquecera do seu inteligente discurso a Procrusto: não que ele fora particularmente um mal rei - ele está, de fato, bem colocado na escala dos reis -, mas abaixo dele nem todos eram iguais perante a lei, alguns mais iguais que outros. Isto porque Teseu também era esquecido como marido: seus amores, escreve Robert de Ranke-Graves, colocaram tantas vezes os atenienses em apuros que eles reconheceram seu verdadeiro valor apenas gerações após a sua morte.

in Engelmann, B. & Jens, W. (1982): Klassenlektüre, Hamburg: Albrecht Knaus Verlag, pgs. 96-99. Tradução de Marco Antonio Franciotti e Celso Braida

Leia o texto original

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Does 'Glaswegian' need translation?

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Images of Glasgow - pictures from Freefoto, Getty, BBC

By Paula Dear
BBC News

An English translation company is looking for people to help interpret the Glaswegian dialect for its often bemused clients. But how hard is it for non-natives of the city to understand a "Weegie"?

If you don't know your midden from your cludgie, you might in future turn to Today Translations for an explanation.

The London-based translation company is advertising for people with a knowledge of the Glaswegian dialect, accent and "nuances" to help interpret for some of its baffled clients when they visit the Scottish city.

It has received more than 300 applications for the job so far, some of which had been written in "Glaswegian".

Glaswegians, known affectionately as Weegies, speak varying levels of a continually-evolving form of dialect widely known as 'the patter'.

The speech comprises a range of Scots expressions, vocabulary and humour, as well examples of rhyming slang, local cultural references, nicknames and street language.

Newspaper advertisement

"Glaswegian" has given rise to a plethora of phrasebooks, joke books, online glossaries and merchandise, not to mention TV and radio shows. There is even a Glasgow Bible, which relates some biblical tales in the vernacular.

In the 1970s, Glasgow-born comedian Stanley Baxter parodied the patter on his television sketch show "Parliamo Glasgow".

But does Glaswegian really need translation?

Understanding will be in the ear of the beholder. Here's you chance to find out. Click on the audio below to hear Gavin Kyle, 36 - who grew up just outside Glasgow - read two short poems by Tom Leonard, written in the city's dialect. The original text and a translation is provided.

Below, one of the job applicants Colum Buchanan reads his submission to the translation firm, which includes some Glasgow places and phrases.

[poems and audio removed]

READ AND LISTEN TO THIS JOB APPLICATION

It's not often a job applicant might get away with calling his prospective employers "bamsticks" - a form of the Glaswegian word bampot, which generally means idiot or fool.

But that's just what Colum Buchanan, 50, did in his application for the job of Glaswegian interpreter.

Click on the audio to hear an edited version of his submission to Today Translations, and see the text version of his e-mail below.

COLUM'S EMAILED JOB APPLICATION

RE: Howsit Hinging Chinas? [how's it going folks?]

Noticed your small ad this morning in ra Herald [newspaper]. Hauvnae [I haven't got] a VC let alone a CV in relation to this type of public service.

Anyhows I'm 50 years old, born up a close [in a tenement building] in the West End, raised in leafy coonsil hoose [council house] aristocracy on the Sooothside [south side of the city], went to the Mossy and the Minors in Hillhead [cinemas], educated in East Endisisms at Ramungo [St Mungo's Academy, Glasgow].

I have working understanding of French and a wide network of alien English manglers. Over to you bamsticks! [fools]

Awrabest [all the best]

Colum Buchanan

Câmara Municipal de Salvador homenageia equipe do livro Obarayi

Salvador, 15 de setembro de 2009.

Of. n°. 3.417/2009

O vereador Pedro Godinho, em sessão ordinária ontem realizada, solicitou a inserção, na ata dos trabalhos, do seguinte pronunciamento:

"É com imensa satisfação que registro, nos anais desta Casa Legislativa, aplausos à equipe de produção do livro intitulado OBARAYÍ BABALORlXÁ Balbino Daniel de Paula, pela brilhante iniciativa e pelo excelente trabalho desenvolvido na edição desta obra de arte, motivo de orgulho para a cultura da nossa terra. A saber: Mauro Lima Rossi - responsável pela coordenação executiva do projeto e pesquisa; Odair Jaques - designer responsável pela direção de arte, projeto gráfico e pesquisa; Aline Andrade Queiroz jornalista e escritora do texto de festas e pesquisa; Reginaldo Ferreira da Silva Filho - responsável pela coordenação contábil e financeira do projeto; Sabrina Gledhill - tradutora; Agnes Mariano jornalista responsável pela elaboração do texto biográfico; Nisan Guanaes - da Agência África, que contribuiu com o importante papel de apoio, patrocínio e credibilidade do projeto; a empresa Frente e Verso Comunicação Integrada, que desenvolveu competente trabalho de assessoria de imprensa; a Fundação Pierre Verger, na pessoa do Presidente Gilberto Sá, que prestou apoio incondicional ao projeto, e finalmente, ao homenageado, figura central do livro que conta a sua história biográfica - o Babalorixá Balbino Daniel de Paula."
Leia a carta na íntegra (em PDF)