sábado, 22 de março de 2008

Grandes Tradutores

A arte da tradução é valorizada em muitas partes do mundo. Infelizmente, no Brasil, o tradutor ainda é visto como um reles técnico ou, pior ainda, um digitador que "digita em outra língua". Para tentar reverter esta situação e superar o preconceito, daremos destaque a grandes tradutores do passado e presente neste Blog, começando com...

BAUDELAIRE

Charles Baudelaire, o grande poeta francês, autor de As flores do mal, também foi tradutor. Traduziu a obra do autor estadounidense Edgar Allan Poe para o francês entre 1852 e 1865. Baudelaire considerava Poe sua "alma gêmea".

Por algum motivo, os trabalhos lúgubres de Edgar Allan Poe fazem mais sucesso na França do que no seu próprio país. Sem dúvida, a qualidade da tradução foi um fator importante nesta façanha.



quarta-feira, 12 de março de 2008

Verbos novos e horríveis

Vejam o que estão fazendo com nosso idioma
Ricardo Freire

Não, por favor, nem tente me disponibilizar alguma coisa, que eu não quero.
Não aceito nada que pessoas, empresas ou organizações me disponibilizem.
É uma questão de princípios. Se você me oferecer, me der, me vender, me emprestar, talvez eu venha a topar. Até mesmo se você tornar disponível, quem sabe, eu aceite. Mas, se você insistir em disponibilizar, nada feito.
Caso você esteja contando comigo para operacionalizar algo, vou dizendo desde de já: pode ir tirando seu cavalinho da chuva. Eu não operacionalizo nada para ninguém e nem compactuo com quem operacionalize. Se você quiser, eu monto, eu realizo, eu aplico, eu ponho em operação. Se você pedir com jeitinho, eu até implemento, mas operacionalizar, jamais.
O quê? Você quer que eu agilize isso para você? Lamento, mas eu não sei agilizar nada. Nunca agilizei. Está lá no meu currículo: faço tudo, menos agilizar. Precisando, eu apresso, eu priorizo, eu ponho na frente, eu dou um gás. Mas agilizar, desculpe, não posso, acho que matei essa aula. Outro dia mesmo queriam reinicializar meu computador. Só por cima do meu cadáver virtual. Prefiro comprar um computador novo a reinicializar o antigo. Até porque eu desconfio que o problema não seja assim tão grave.
Em vez de reinicializar, talvez seja o caso de simplesmente reiniciar, e pronto.Por falar nisso, é bom que você saiba que eu parei de utilizar. Assim, sem mais nem menos. Eu sei, é uma atitude um tanto radical da minha parte, mas eu não utilizo mais nada. Tenho consciência de que a cada dia que passa mais e mais pessoas estão utilizando, mas eu parei. Não utilizo mais.Agora só uso. E recomendo. Se você soubesse como é mais elegante, também deixaria de utilizar e passaria a usar.
Sim, estou me associando à campanha nacional contra os verbos que acabam em "ilizar". Se nada for feito, daqui a pouco eles serão mais numerosos do que os terminados simplesmente em "ar". Todos os dias, os maus tradutores de livros de marketing e administração disponibilizam mais e mais termos infelizes, que imediatamente são operacionalizados pela mídia, reinicializando palavras que já existiam e eram perfeitamente claras e eufônicas.
A doença está tão disseminada que muitos verbos honestos, com currículo de ótimos serviços prestados, estão a ponto de cair em desgraça entre pessoas de ouvidos sensíveis.Depois que você fica alérgico a disponibilizar, como vai admitir, digamos, "viabilizar"?
É triste demorar tanto tempo para a gente se dar conta de que"desincompatibilizar" sempre foi um palavrão. Precisamos reparabilizar nessas palavras que o pessoal inventabiliza só para complicabilizar.
Caso contrário, daqui a pouco nossos filhos vão pensabilizar que o certo é ficar se expressabilizando dessa maneira. Já posso até ouvir as reclamações:"Você não vai me impedibilizar de falabilizar do jeito que eu bem quilibiliser".
Problema seu. Inclua-me fora dessa.

domingo, 9 de março de 2008

Pagando para ver?

"Pagar para ver" é um termo que vem dos jogos de azar - definidos pela Wikipedia como "jogos nos quais a possibilidade de ganhar ou perder não dependem da habilidade do jogador, mas sim exclusivamente do azar do apostador, encabeçando essa categoria temos a roleta."

Podemos chamar de "roleta russa" a tendência de contratar os tradutores que oferecem o preço mais baixo, em vez de verificar, primeiro, se todos os concorrentes têm as mesmas qualificações.

O verdadeiro "azar" vem quando a tradução arranha a imagem do cliente, fazendo que, em muitos casos, este perca dinheiro também. É o caso da revista que visa atrair turistas afrodescendentes dos Estados Unidos com uma capa que utiliza o termo "negro", com "n" minúsculo, para se referir à raça negra em inglês. Este termo, que, para começar, é sempre utilizado com "n" maiúsculo, é mais do que ultrapassado. Deixou de ser utilizado nos EUA na década de 60. Antes um termo neutro, passou a ser considerado pejorativo.

Em outras palavras, a revista que pretendia atrair o turista afro-americano - que prefere ser chamado de "African American", com toda razão - acabou por ofendê-lo. Só porque "apostou" no tradutor errado.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Os Problemas da Tradução (Os Romances Russos)

Texto da autoria de "Collette-Doucet"
Veja a página original aqui

Existe a ideia de que uma boa tradução é aquela onde o leitor não consegue discernir qual a língua original em que o livro foi escrito. Os tradutores defensores desta ideia chegam ao ponto de substituir os nomes das personagens por transliterações aproximadas, onde o resultado final é um nome próprio bem português. Ora, tratando eu do caso das traduções de obras iterarias russas para a língua portuguesa, cabe a mim dar a minha opinião, não só como estudante da língua, mas também como leitora, sobre esses métodos, por mim considerados impróprios e antiquados.

Passaram por minhas mãos clássicos prosaicos escritos por Tólstoi, Dostoiévsky, Turguéniev, entre outros. Se não fizesse parte do meu conhecimento quais as boas e escassas versões em português dessas mesmas obras, faria eu parte do tão extenso grupo de portugueses que vê toda a literatura russa como algo enfadonho, confuso e pesado. A razão deste tipo de adjectivação pela maioria reside no facto de, até bem pouco tempo, serem inexistentes as traduções directas do russo. Custosamente encontro alguma lógica na técnica de traduzir sobre uma tradução. Pois se então se diz, que já com uma simples tradução directa a mensagem e o lirismo pelo caminho se perdem, não vejo o porquê de aumentar ainda mais este problema financiando ainda hoje uma tradução de Ánna Karénina do francês.

Se admiro muito o Sr. Saramago, como tão revolucionário escritor que é, resta-me declarar que como tradutor pouco mérito tem. Começo por apontar o quão desastrado foi a decisão de traduzir os nomes das personagens na sua tradução da obra acima apontada. Ao fim da terceira página, tem o leitor a impressão de que está perante a estória da família Silva a viver em Moscovo. Não há razões para traduzir os nomes. Porquê privar o leitor da satisfação de uma maior aproximação, que a não tradução dos nomes dá? É descabido traduzir o nome Serguéi, que no nosso registo civil se encontra, para Sérgio. A meu ver, os nomes não têm tradução, e em casos de nomes escritos em alfabetos diferentes ao nosso latino, contentemo-nos então com uma transliteração. Assumo que difícil é a tarefa de traduzir a simplicidade estrutural da língua russa. Mas quando em frente a este exemplar traduzido pelo nosso Nobel, não encontro sinais de uma prosa naturalmente simples, mas de uma confusão literária cheia de visíveis floreados dignos da língua francesa, que no português não funcionam. Uma tradução deve respirar a cultura, a história e a sociedade do país de raiz do livro. Existe uma passagem a meio do grande romance trágico de Tólstoi, onde um personagem descreve prolongadamente os campos, os ares e funcionamento dos kolhoz. Quando má traduzida, a descrição é imensamente confusa e deveras entediante. O génio de Tólstoi perde-se pelo caminho. A certa altura, não se percebe quem está a descrever, nem o que está a ser descrito.

Acontece porém, que há poucos meses atrás, um senhor chamado António Pescada traduziu esta mesma obra directamente do russo. O tradutor é licenciado pelo Conservatório de Letras de Moscovo em Língua e Literatura Russas. Numa entrevista ao DN, António Pescada mostrou o seu descontentamento quanto ao diminuto número de boas traduções dos clássicos russos. Foi esta a grande razão porque pôs ele mãos a obra. A passagem da qual falei foi a que mais trabalho deu a Pescada e só com muito esforço, criatividade e re-revisões ficou, e não totalmente, ele contente. Lembro-me de concordar com uma passagem na sua entrevista onde afirmava que se um romance é russo, deve-se entender que é russo. Porquê disfarçar a naturalidade do romance? Ainda para mais no nosso mundo de hoje onde a globalização está mais que presente. António Pescada precisou à volta de um ano para concluir a sua tradução. Chego eu à conclusão que falta de empenho, aliada a prazos apertados e maus financiamentos sãos os motivos que levam a muitos traduzir de forma incorrecta. Se Saramago repudiou as notas de rodapé à boa velha maneira, Pescada utilizou-as sempre que um termo, que chamava por explicação, na narrativa aflorava. Os apologistas da rejeição destas notas defendem a sua posição, argumentado que estas indicações quebram a leitura do livro. Eu digo que nem toda a gente tem cultura geral suficiente para entender o que kolhoz ou kvass quer dizer. E significa isso que essas pessoas não têm também o direito de entender na íntegra um romance russo? Não quebrará mais a leitura a ida a uma enciclopédia aquando o não entendimento de termos relacionados com a história e cultura russa? Ou pior, que por simples inércia, a leitura essas pessoas prossigam sem entenderam o que estão a ler?

A jeito de esclarecimento exporei um pequeno exemplo de um caso de má tradução. Algures no final do romance de Dostoievski "O Jogador" traduzida do francês por Delfim de Brito encontra-se a seguinte passagem: "Beijámo-nos cordialmente e Mr. Astley foi-se embora.". A última tradução desta obra por António Pescada é um pouco diferente: "Abraçámo-nos calorosamente e Mister Astley foi-se embora.". É de sublinhar que as duas personagens em questão são dois homens. Quando tomei conhecimento da tradução de Delfim de Brito, fiquei chocadíssima, pois nunca imaginei que Mister Astley e o personagem principal da narrativa se poderiam beijar. Vejamos, a estória passa-se a meados do século XIX, e o erro deverá provir da confusão do tradutor francês, que vendo os líderes comunistas do século XX se cumprimentarem por meio de um beijo, pensou talvez que desde sempre se cumprimentam os homens na Rússia desta forma. O verbo utilizado em russo não é o beijar, mas sim abraçar: Обнимать.

Resta-me congratular os fabulosos tradutores que são António Pescada, Nina Guerra e Filipe Guerra. Ao primeiro, principalmente, por ter disponibilizado ao público português uma óptima tradução da belíssima obra de Bulgákov que é "Margarita e o Mestre". Aos outros dois a fantástica tradução de "Guerra e Paz" de Lév Tólstoi em quatro volumes, pela qual foram já premiados.


Você aceita uma "overtable"?

Texto da autoria de H. Sabrina Gledhill

Certa vez, chamaram minha atenção ao website do Departamento de Turismo de um país latino-americano. Escrito em seu próprio idioma, o espanhol, fornecia também versões em inglês e português. A língua de Shakespeare encontrava-se num estado lastimável ("renovable visas" e outros tantos), mas o que mais me impressionou foram as reações de brasileiros quando testemunharam o massacre da língua de Camões. Variavam do escárnio à raiva. Aí, me perguntei, será que a maioria dos brasileiros sabe como e quanto o inglês e o espanhol são massacrados nas versões realizadas em seu país?

Existem mais pessoas no mundo que falam o inglês como segunda língua do que ditos nativos. Portanto, aqueles que "nascem" falando o inglês não só perdoam sotaques (eufemismo para má pronúncia e erros de gramática) como acham cute (bonitinho) e até románticos ou sexy, por exemplo, nos casos de Sônia Braga ou Antonio Banderas (ou, atualizando, de Rodrigo Santoro e Javier Bardem). Mas, convenhamos, uma grande empresa ou órgão do governo não ficaria nem um pouco contente se um relatório anual ou livro de arte seu, que representa um farto investimento na sua imagem, fosse considerado, na melhor das hipóteses, cute. Se quiserem ser levados a sério e até evitarem o ridículo no mercado globalizado, é preciso certificar que o seu inglês seja "para inglês ver". Por que isto é difícil?

Para a maioria das pessoas físicas e jurídicas, contratar um tradutor para verter um texto é parecido com um cego ou daltônico que contrata alguem para pintar sua casa. Como é que ele pode certificar que seu domicílio foi pintado de azul claro, como combinaram, e não de roxo ou rosa choque? Naturalmente, a resposta é óbvia: contratando uma pessoa de confiança e conferindo com terceiros que enxergam bem. Ao contrário, só descobrirá o mau resultado quando ouvir as risadas e até piadas daqueles que passam em frente à casa.

Mas isto é apenas uma face da moeda. O tradutor seria melhor comparado a um artista plástico que a um pintor de paredes. O artista pode ser daqueles que "pintam pelos números", retratando cada feição do modelo com fidelidade fotográfica, mas deixando de mostrar o conjunto e até a alma da pessoa. Se tiver talento, experiência e instrução, será daqueles que interpretam, recriam e espelham o modelo, produzindo uma obra que é uma festa para os olhos. Quando o tradutor se prende às palavras, o significado se perde de vista. E muitas palavras são amigas da onça – por exemplo, a palavra "azul" só pode ser vertido para o inglês como "blue" quando, de fato, se trata de quadros, paredes etc. Os significados que fogem do pé da letra são muito diferentes. Em outros contextos, a palavra "blue" pode ser "triste" ("I'm blue"). Pode também significar "pornô" quando se trata de cinema ("blue movies"). O comprador que se cuide…

É necessário, portanto, um profundo conhecimento das nuanças e da cultura da língua alvo, alem do idioma em si. Infelizmente, muitos tradutores que fazem ótimas traduções para o português tropeçam nas palavras quando realizam versões. Certa feita, fui convidada a verter as legendas de um livro para o inglês. Quando surgiu uma dúvida quanto à versão de um termo no miolo (para manter a uniformidade), estranhei a resposta e o cliente pediu que eu revisasse o livro inteiro. Estava um horror. No sentido figurado, traduzia "sobremesa" como "overtable"! Como isto podia acontecer? O tradutor apresentara um ótimo currículum, mas o trabalho estava pessimo. Com muito trabalho e despesa, por parte do cliente arrasado, o problema foi resolvido às vesperas da edição do livro. Desta vez, a história teve um "happy ending".

Espero que tenha lançado uma semente de dúvida quanto à qualidade das versões para línguas estrangeiras produzidas no Brasil e na Bahia, salvo ilustres exceções. Mas também gostaria de oferecer algumas soluções. A longo prazo, sugiro a implementação de cursos de tradução e um sistema de certificação profissional reconhecida em todo o país. Na Inglaterra, os tradutores fazem uma prova e os aprovados recebem um certificado ou diploma que serve para comprovar suas qualificações. No Canadá, o profissional qualificado tem que ser bacharel em tradução. Isto seria o ideal. Por enquanto, voltamos à metáfora do cego e o pintor. Primeiro, o contratante deve pedir o currículum e as referências do candidato; segundo, pede-se uma amostra, com preferência, do trabalho a ser realizado, o que deve ser avaliada por um terceiro isento e, naturalmente, qualificado.

Afinal, realizar uma boa versão ou tradução é questão de bom conhecimento de línguas, boa redação e, o que é fundamental, um profundo entendimento das culturas do escritor e do leitor. Assim como o bom artista plástico precisa de mais que pincel e tinta, ser bilingüe é só o começo!


Artigo publicado no jornal português O Primeiro de Janeiro

A tradução tem muitas toupeiras

Veja este artigo no blog
Tradutores, Traidores & Simpatizantes

Você, o Cliente/You, the Client


"If I'm selling to you, I must speak your language. If I'm buying, 'dann muessen Sie Deutsch sprechen' [then you must speak German]
Willy Brandt (1913-1992), German Chancellor (1969–1974)
Estas dicas são da autoria de João Roque Dias, um tradutor radicado em Portugal.

terça-feira, 4 de março de 2008

Tradutor, traidor ou traído?

Texto da autoria de H. Sabrina Gledhill

O caro leitor já leu a Bíblia? Se a resposta é sim, com certeza, tratava-se de uma tradução, a não ser que domine o grego ou o aramaico. Esse texto sagrado dos cristãos já foi vertido para quase todas as línguas conhecidas – e algumas praticamente desconhecidas, o colecionador e amigo Cid Teixeira que o diga. Somente na língua inglesa, os fiéis e estudiosos podem escolher de uma gama de versões, que vai da poética tradução encomendada pelo Rei James, a várias outras ditas atuais e até políticamente corretas.

De outro lado, qualquer brasileiro que pretende estender seus conhecimentos e cultura para além da rica literatura de sua própria língua tem duas alternativas – tornar-se poliglota ou entregar-se às mãos de um tradutor para ler o repertório obrigatório de obras clássicas da literatura universal, como Shakespeare (inglês antigo), Tolstoi (russo), Victor Hugo (francês) e Garcia Marques (castelhano).

Mas não são apenas aqueles que se dedicam às palavras divinas ou à cultura que dependem dessa mal-compreendida classe, a dos tradutores. Quase tudo que se passa no telão e até na telinha precisa de legendação ou dublagem. Além de romances, gibis, notícias do mundo publicadas nos jornais, colhidas de agências internacionais como a AP ou a Reuters. Enfim, uma grande parte do dia a dia de todas as classes sociais e todos os níveis intelectuais depende da arte e do ofício da tradução.

Então, como é que, ao menos no Brasil, essa tremenda responsabilidade é entregue a uma classe pouco valorizada? (O tradutor é considerado um reles “técnico”; não chega a ser visto como um profissional de nível superior.) São artistas e artesãos que, mesmo quando devidamente qualificados – a estas qualificações chegaremos em breve – geralmente carecem das mínimas condições necessárias para realizarem um bom trabalho. Em outras palavras, precisam de tempo suficiente para pesquisa e remuneração compatível com as exigências do dia de hoje, porque o tradutor bem equipado, no mínimo, precisa de um micro-computador tipo Pentium, várias modalidades de software permanentemente atualizadas, telefax, telefone – no mínimo duas linhas, uma para voz e outra para Internet e telefax – e acesso à Internet, já que o correio eletrônico vem superando os meios tradicionais de recebimento e entrega de trabalhos.

Quanto às pressões de tempo, nenhum exemplo é melhor do que o tão criticado tradutor de filmes. Convenhamos, por exemplo, que na legendagem e na dublagem frequente- e famigeradamente erram, traduzindo o “sim” como “não” e até “perna” como “velório”! Mas nem por isso posso criticar a estes colegas (sim, eu também pertenço a esta tão desprezada classe), porque sei que o trabalho deles (ou delas) geralmente é realizado no tempo necessário para passar o filme!

Frequentemente, e esta situação não se limita ao Brasil, a pessoa física ou jurídica que precisa de uma tradução acredita nos seguintes mitos:

1. o primo de Fulano pode fazer o trabalho muito bem, porque cursou dois anos de “High School” nos Estados Unidos na década de 80, ou passou três anos na Inglaterra quando criança e “fala quase sem sotaque.”
2. um trabalho realizado em três meses a oito mãos por uma equipe multidisciplinar pode ser traduzido por uma pessoa em três dias (ainda mais se for pelo primo de Fulano!).
3. um bom tradutor pode realizar seu trabalho na hora, até por telefone, sem dicionários ou outras fontes de referência.
4. um tradutor competente se encontra em qualquer lugar (apesar de definirmos como capaz o tradutor que possui um conhecimento profundo das duas línguas, tem nível superior, pelo menos na língua alvo; tem excelente capacidade de interpretação de textos, trabalha rápidamente e com precisão, dispõe de equipamentos de ponta e sempre cumpre os prazos nem sempre negociados).
5. quem sabe traduzir de uma língua para outra (digamos, do português para o inglês) pode trilhar o caminho inverso (do inglês para o português) com a mesma facilidade.
6. os tradutores em breve serão substituidos pela informática.

Somente quando esses mitos forem erradicados e os profissionais que se dedicam à tradução como arte e ofício devidamente respeitados, poderemos dizer que o tradutor, antes traído pelo preconceito e a falta de informação, passará a ser um verdadeiro aliado da comunicação, do bom entendimento e da cultura universal.

H. Sabrina Gledhill é inglesa, radicada na Bahia desde 1986. Além de tradutora (com muito orgulho) e brasilianista, com Mestrado na área de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Califórnia em Los Angeles – UCLA, também é Bacharel em Letras Inglesas e Bacharel Internacional da ONU. Ao longo de sua carreira, traduziu para o inglês várias publicações culturais e outras, inclusive mais de 25 livros publicados no Brasil e no exterior. Antes de fixar-se no Brasil, trabalhou como jornalista e editora nos Estados Unidos.

Artigo publicado no jornal A Tarde em 24 de julho de 1998