quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Circulando o saber

http://www.cptraducoes.com.br/noticias.asp
Você aceita uma OVERTABLE?
H. Sabrina Gledhill

Há pouco tempo, chamaram minha atenção ao website do Departamento de Turismo de um país latino-americano. Escrito em seu próprio idioma, o espanhol, fornecia também versões em inglês e português. A língua de Shakespeare encontrava-se num estado lastimável ("renovable visas" e outros tantos), mas o que mais me impressionou foram as reações de brasileiros quando testemunharam o massacre da língua de Camões. Variavam do escárnio à raiva. Aí, me perguntei, será que a maioria dos brasileiros sabe como e quanto o inglês e o espanhol são massacrados nas versões realizadas em seu país?

Existem mais pessoas no mundo que falam o inglês como segunda língua do que ditos nativos. Portanto, aqueles que "nascem" falando o inglês não só perdoam sotaques (eufemismo para má pronúncia e erros de gramática) como acham cute (bonitinho) e até românticos ou sexy, por exemplo, nos casos de Sônia Braga ou Antonio Banderas. Mas, convenhamos, uma grande empresa ou órgão do governo não ficaria nem um pouco contente se um relatório anual ou livro de arte seu, que representa um farto investimento na sua imagem, fosse considerado, na melhor das hipóteses, cute. Se quiserem ser levados a sério e até evitarem o ridículo no mercado globalizado, é preciso certificar que o seu inglês seja "para inglês ver". Por que isto é difícil?

Para a maioria das pessoas físicas e jurídicas, contratar um tradutor para verter um texto é parecido com um cego ou míope que contrata alguém para pintar sua casa. Como é que ele pode certificar que seu domicílio foi pintado de azul claro, como combinaram, e não de roxo ou rosa choque? Naturalmente, a resposta é óbvia: contratando uma pessoa de confiança e conferindo com terceiros que enxergam bem. Ao contrário, só descobrirá o mau resultado quando ouvir as risadas e até piadas daqueles que passam em frente à casa.

Mas isto é apenas uma face da moeda. O tradutor seria melhor comparado a um artista plástico que a um pintor de paredes. O artista pode ser daqueles que "pintam pelos números", retratando cada feição do modelo com fidelidade fotográfica, mas deixando de mostrar o conjunto e até a alma da pessoa. Se tiver talento, experiência e instrução, será daqueles que interpretam, recriam e espelham o modelo, produzindo uma obra que é uma festa para os olhos. Quando o tradutor se prende às palavras, o significado se perde de vista. E muitas palavras são amigas da onça – por exemplo, a palavra "azul" só pode ser vertido para o inglês como "blue" quando, de fato, se trata de quadros, paredes etc. Os significados que fogem do pé da letra são muito diferentes. Em outros contextos, a palavra "blue" pode ser "triste" ("I'm blue"). Pode também significar "pornô" quando se trata de cinema ("blue movies"). O comprador que se cuide…

É necessário, portanto, um profundo conhecimento das nuanças e da cultura da língua alvo, além do idioma em si. Infelizmente, muitos tradutores que fazem ótimas traduções para o português tropeçam nas palavras quando realizam versões. Certa feita, fui convidada a verter as legendas de um livro para o inglês. Quando surgiu uma dúvida quanto à versão de um termo no miolo (para manter a uniformidade), estranhei a resposta e o cliente pediu que eu revisasse o livro inteiro. Estava um horror. No sentido figurado, traduzia "sobremesa" como "overtable"! Como isto podia acontecer? O tradutor apresentara um ótimo curriculum, mas o trabalho estava péssimo. Com muito trabalho e despesa, por parte do cliente arrasado, o problema foi resolvido às vesperas da edição do livro. Desta vez, a história teve um "happy ending".

Afinal, realizar uma boa versão ou tradução é questão de bom conhecimento de línguas, boa redação e, o que é fundamental, um profundo entendimento das culturas do escritor e do leitor. Assim como o bom artista plástico precisa de mais que pincel e tinta, ser bilingüe é só o começo!





Traduzir do português ao espanhol: uma coisa muito simples

Rodolfo Alpízar Castillo
(Asociación Cubana de Traductores y Intérpretes)

«A tradução entre português e espanhol é demasiado fácil, nem sequer é precisa» – é uma afirmação que se encontra muito difundida. É verdade que a «parecença de família» entre ambas as línguas é forte, que a história comum dos povos hispano e lusofalantes é de longa data, que partilhamos uma cultura muito similar e que, para efeitos duma comunicação geral e pouco complexa, é possível encontrar pontos de aproximação que possibilitam que «a gente se entenda». Mas qualquer tradutor experiente sabe que tanta semelhança esconde não poucas armadilhas. Por exemplo, os «falsos amigos» estão constantemente prontos a estragar a transmissão da mensagem: nem é preciso esforçarmo-nos muito para obter um número significativo. Nos «culebrones» brasileiros, de que tanto se gosta na Hispano-América, não é raro encontrarmos muitos destes «falsos amigos», usados a todo o momento; alguns, por serem tão frequentes, têm-se tornado habituais e nem se dá por isso. Um deles é o adjectivo “esquisito”, que sempre aparece na versão espanhola traduzido por “exquisito”, palavra que em espanhol significa «que tem uma qualidade, um refinamento e um bom gosto fora do comum»:

“una comida exquisita” (um jantar delicioso);
“una acogida exquisita” (um acolhimento esmerado).

Quem pensa que a tradução entre português e espanhol é demasiado fácil e por vezes nem é necessária esquece ainda que existe um outro problema: a lusofonia é multicultural e multirracial, tal como a hispanofonia. No entanto, trata-se de dois sistemas muito complexos, entre os quais nem sempre existem coincidências culturais. Pensar que a tradução entre eles é uma coisa simples é mais uma mostra de ignorância. Não é igual traduzir para espanhol (de Espanha?, do México?, da Argentina?) um texto português ou um texto brasileiro ou cabo-verdiano. As diferenças culturais entre as três zonas são consideráveis. A minha experiência diz-me que me sinto mais à vontade nas traduções de obras africanas ou portuguesas. Mas, se tomarmos apenas o exemplo do Brasil, acaso têm as mesmas características um texto literário nordestino e um texto feito no Sul?

Tenho a sorte de, tendo traduzido muitas vezes do português para o espanhol, pelo menos uma vez ter sido traduzido para português europeu. Estou a referir-me a Sobre um Monte de Lentilhas, publicado pela Caminho em 2000, traduzido por Artur Guerra e Cristina Rodríguez. Isto tem-me permitido conhecer os dois ângulos do processo; esta minha experiência pessoal permite-me afirmar que a «facilidade para traduzir» entre as duas línguas é totalmente falsa.

É verdade que, para um hispanofalante como eu, é mais fácil traduzir do português do que do chinês ou do iraniano, mas nem por isso é questão de «atar e pôr ao fumeiro». Não poucas vezes, a dificuldade é tal que é preciso servir-se daquilo que, para muitos, é a confissão da ignorância do tradutor (afirmação com que não concordo): o rodapé. No entanto, aceito o rodapé se o trabalho do tradutor for entendido como um serviço de divulgação cultural, de abertura de fronteiras entre povos que se não conhecem. Quando fiz a tradução dum romance cabo-verdiano para os leitores hispanofalantes, pude dizer, simplesmente,

"fue a la cocina para ver si la comida ya estaba preparada"
(Lopes, Manuel, Lluvia brava, La Habana, 1990, p. 26),


mas achei ser meu dever não pôr no meu texto, “comida” – fraca tradução para mim, senão deixar a palavra “cachupa” (o que fiz), e dar ao leitor, no rodapé, a informação cultural que ele não tem. Algum teórico poderia dizer que deveria deixar “cachupa”, sem qualquer nota explicativa. O leitor é inteligente e compreende que é alguma comida típica, mas, nesse caso, ele nunca iria descobrir o que é a cachupa. Do mesmo modo, como autor, fiquei grato quando vi no meu romance as notas onde se esclarecem palavras próprias de Cuba como “mambí” (mesmo com uma pequena gralha), “machorra” (nota aliás imprescindível para compreender o jogo de palavras que vem logo a seguir) e algumas outras que o leitor português não podia conhecer. Apesar da gralha…

Entre as palavras portuguesas sem verdadeiros equivalentes em espanhol conta-se não só a tão falada “saudade” (que por vezes traduzimos por “nostalgía”, outras por “añoranza”, “melancolía”, “tristeza” ou mesmo “morriña”, mas nem sempre estamos certos de ter feito uma boa tradução); entre elas também está a não menos caracterizadora “luar”, que não tem equivalente em espanhol: umas vezes é “luz de luna”, outras, “claro de luna”, mas também, segundo o contexto, pode ser simplesmente “luna” (“noites de luar” – “noches de luna”).

Vem aqui à colação uma anedota: há pouco tempo, tive de fazer, para uma editorial, a avaliação de um caderno de poesia em português; o autor apresentava, junto de cada poema, una versão em espanhol, não sei se dele, mas acho que sim. Agora que, com a ajuda da Internet, podemos comunicar com os autores vivos, facilmente percebemos que eles nem sempre propõem as melhores soluções, mesmo conhecendo as duas línguas. Uma vez já tive de dizer: «O senhor pode ter razão, mas o falante nativo sou eu». Acho que faz bem ao tradutor não esquecer isso, mesmo respeitando em geral as opiniões autorais. Voltando à anedota, tratava-se de poesia moderna, sem metro nem rima, portanto, a quantidade de sílabas no verso não tinha importância. Em dado trecho, em português estava:

“o roxo que da luz parte / ... / meigo como o luar”

e em espanhol:

“el rojo que de la luz parte / ... / amoroso como el luar”.

O autor da tradução, além de se enganar com o falso amigo “roxo” (espanhol: “púrpura”, “violeta”; o espanhol “rojo” é o português “vermelho” ou “encarnado”), deixou “luar” por traduzir e pôs uma nota no rodapé a esclarecer que se tratava da luz da lua, facto que, para mim, bem merecia o nome de «traição». (Gostei, porém, de “amoroso” por “meigo”.)

É bem verdade que por vezes é conveniente deixar algumas palavras por traduzir (o caso de “saudade” pode ser uma delas), para deixar no leitor um certo «sabor» pessoal do autor, indefinível mas existente, que poderia perder-se na tradução. Mas não era o caso. Traduzir amoroso como “la luz de la luna”, ou, melhor ainda, “amoroso” como “luz de luna” era uma boa e simples solução para manter o sentido do verso.

Em geral, a tradução acima comentada sofria de um problema que é um risco permanente para quem traduz do português para espanhol, tanto na poesia como na prosa: ficar demasiado colada ao original. É evidente que o problema existe sempre, para qualquer par de línguas, mas, no caso do par português–espanhol, o risco é maior, dada a proximidade entre as duas línguas. É preciso estarmos sempre vigilantes neste sentido. Porém, também não é bom ter uma posição muito fechada a esse respeito. Penso que umas vezes o tradutor deve ficar «colado» ao original e outras deve afastar-se o máximo possível. O bom-senso (que se não estuda na escola, nem ensinam as teorias) deve dirigir a escolha.

Neste sentido, mais uma experiência pessoal: eu não posso dizer se a minha tradução de Levantado do Chão (José Saramago) é melhor, pior ou igual à de Basilio Losada, uma das pessoas que mais tem traduzido José Saramago, embora a minha tradução seja a mais antiga, pois ficou terminada em Abril de 1985 e apenas os problemas da indústria editorial do meu país impediram que ela fosse a primeira tradução para espanhol de um romance de Saramago. Mas o autor gostou mais do meu título em espanhol (Levantado del Suelo, La Habana, 1989; o título da edição espanhola do mesmo ano é Alzado...), o qual aparece nas mais recentes edições, por indicação de Saramago. Eu preferi «colar-me ao original», partindo da pergunta que me fiz: por que razão, existindo na sua língua duas possibilidades, “levantado” e “alçado”, o autor (que na altura eu desconhecia) preferiu a primeira? Além disso, qualquer coisa de subjectivo (um palpite, razão, aliás, nada científica) fazia-me sentir em “levantado” alguma conotação particular que tornava esta palavra preferível... E anos depois tive a satisfação de ouvir Saramago dizer-me que gostava.

Quer dizer que deve ser sempre assim? De modo nenhum. O que acho nunca dever faltar é o tradutor fazer-se a si próprio a pergunta: podendo usar “X”, porque é que o autor usou “Y”? Alguma razão teve, vamos tentar achá-la. Isso é, para mim, uma mostra do bom-senso do tradutor, da sua «arte». O conhecimento aprofundado das línguas, a cultura geral e o estudo constante são condições que todo e qualquer tradutor deve possuir, sejam quais foram as suas línguas de trabalho; mas nada disso faz uma boa tradução se faltar o bom-senso. Essa é a principal defesa do tradutor - para não se aplicar a ele, com razão, o anátema de «traidor». Mas também para converter o seu trabalho em arte, para merecer ele também ser chamado de criador.

No caso acima comentado, do caderno de poemas, faltou precisamente o bom-senso. E quem traduziu não agiu como criador, mas como traidor. Veja-se mais uma amostra. Onde em português dizia:

“O espelho que repousa no berço”

ele «colou-se» ao original e escreveu:

“El espejo que reposa en el verso”.

Falso amigo “verso” por “berço”? Pode ser; mas penso, em primeiro lugar, na falta de bom-senso, porque em português “verso” é bem conhecido, não vejo como possa confundir-se. Ou faltou a mão de um tradutor. Um verdadeiro tradutor não se enganaria.

Seria, então, o próprio autor, ou qualquer outro ‘intruso’ quem traduziu? Se julgarmos pelo resultado... Enfim, vê-se logo que a tradução entre português e espanhol é uma coisa muito simples! Ou não?

Fonte: www.instituto-camoes.pt (Centro Virtual Camões – No. 4 Maio 2004)

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