quinta-feira, 6 de março de 2008

Você aceita uma "overtable"?

Texto da autoria de H. Sabrina Gledhill

Certa vez, chamaram minha atenção ao website do Departamento de Turismo de um país latino-americano. Escrito em seu próprio idioma, o espanhol, fornecia também versões em inglês e português. A língua de Shakespeare encontrava-se num estado lastimável ("renovable visas" e outros tantos), mas o que mais me impressionou foram as reações de brasileiros quando testemunharam o massacre da língua de Camões. Variavam do escárnio à raiva. Aí, me perguntei, será que a maioria dos brasileiros sabe como e quanto o inglês e o espanhol são massacrados nas versões realizadas em seu país?

Existem mais pessoas no mundo que falam o inglês como segunda língua do que ditos nativos. Portanto, aqueles que "nascem" falando o inglês não só perdoam sotaques (eufemismo para má pronúncia e erros de gramática) como acham cute (bonitinho) e até románticos ou sexy, por exemplo, nos casos de Sônia Braga ou Antonio Banderas (ou, atualizando, de Rodrigo Santoro e Javier Bardem). Mas, convenhamos, uma grande empresa ou órgão do governo não ficaria nem um pouco contente se um relatório anual ou livro de arte seu, que representa um farto investimento na sua imagem, fosse considerado, na melhor das hipóteses, cute. Se quiserem ser levados a sério e até evitarem o ridículo no mercado globalizado, é preciso certificar que o seu inglês seja "para inglês ver". Por que isto é difícil?

Para a maioria das pessoas físicas e jurídicas, contratar um tradutor para verter um texto é parecido com um cego ou daltônico que contrata alguem para pintar sua casa. Como é que ele pode certificar que seu domicílio foi pintado de azul claro, como combinaram, e não de roxo ou rosa choque? Naturalmente, a resposta é óbvia: contratando uma pessoa de confiança e conferindo com terceiros que enxergam bem. Ao contrário, só descobrirá o mau resultado quando ouvir as risadas e até piadas daqueles que passam em frente à casa.

Mas isto é apenas uma face da moeda. O tradutor seria melhor comparado a um artista plástico que a um pintor de paredes. O artista pode ser daqueles que "pintam pelos números", retratando cada feição do modelo com fidelidade fotográfica, mas deixando de mostrar o conjunto e até a alma da pessoa. Se tiver talento, experiência e instrução, será daqueles que interpretam, recriam e espelham o modelo, produzindo uma obra que é uma festa para os olhos. Quando o tradutor se prende às palavras, o significado se perde de vista. E muitas palavras são amigas da onça – por exemplo, a palavra "azul" só pode ser vertido para o inglês como "blue" quando, de fato, se trata de quadros, paredes etc. Os significados que fogem do pé da letra são muito diferentes. Em outros contextos, a palavra "blue" pode ser "triste" ("I'm blue"). Pode também significar "pornô" quando se trata de cinema ("blue movies"). O comprador que se cuide…

É necessário, portanto, um profundo conhecimento das nuanças e da cultura da língua alvo, alem do idioma em si. Infelizmente, muitos tradutores que fazem ótimas traduções para o português tropeçam nas palavras quando realizam versões. Certa feita, fui convidada a verter as legendas de um livro para o inglês. Quando surgiu uma dúvida quanto à versão de um termo no miolo (para manter a uniformidade), estranhei a resposta e o cliente pediu que eu revisasse o livro inteiro. Estava um horror. No sentido figurado, traduzia "sobremesa" como "overtable"! Como isto podia acontecer? O tradutor apresentara um ótimo currículum, mas o trabalho estava pessimo. Com muito trabalho e despesa, por parte do cliente arrasado, o problema foi resolvido às vesperas da edição do livro. Desta vez, a história teve um "happy ending".

Espero que tenha lançado uma semente de dúvida quanto à qualidade das versões para línguas estrangeiras produzidas no Brasil e na Bahia, salvo ilustres exceções. Mas também gostaria de oferecer algumas soluções. A longo prazo, sugiro a implementação de cursos de tradução e um sistema de certificação profissional reconhecida em todo o país. Na Inglaterra, os tradutores fazem uma prova e os aprovados recebem um certificado ou diploma que serve para comprovar suas qualificações. No Canadá, o profissional qualificado tem que ser bacharel em tradução. Isto seria o ideal. Por enquanto, voltamos à metáfora do cego e o pintor. Primeiro, o contratante deve pedir o currículum e as referências do candidato; segundo, pede-se uma amostra, com preferência, do trabalho a ser realizado, o que deve ser avaliada por um terceiro isento e, naturalmente, qualificado.

Afinal, realizar uma boa versão ou tradução é questão de bom conhecimento de línguas, boa redação e, o que é fundamental, um profundo entendimento das culturas do escritor e do leitor. Assim como o bom artista plástico precisa de mais que pincel e tinta, ser bilingüe é só o começo!


Um comentário:

Sandro Decottignies disse...

Olá. Adorei seu blog e fiquei realmente contente de ver uma estrangeira que domina tão bem nossa língua. Quisera eu ser capaz de escrever tão bem no seu idioma (e, quer saber?, até em português). Só uma dica: no início do seu texto, você usa a expressão "ao contrário" num contexto em que me parece que seria mais apropriado dizer "do contrário". "Ao contrário" indica um oposto, por exemplo: "ele achou que ninguém descobriria sua mentira; ao contrário, foi rapidamente desmascarado". "Do contrário", por sua vez, é mais como "na hipótese contrária", "senão": "É preciso comer frutas; do contrário, nossa imunidade pode baixar".
Continue com o excelente trabalho. Um abraço.